{"id":651,"date":"2013-05-28T21:43:46","date_gmt":"2013-05-29T00:43:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ongtrem.org.br\/site\/?p=651"},"modified":"2023-10-21T14:54:58","modified_gmt":"2023-10-21T17:54:58","slug":"rincha-mula-veia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oexpresso.org\/ongtrem3\/rincha-mula-veia\/","title":{"rendered":"Rincha, mula \u201cv\u00e9ia\u201d!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">*Rosalvo Pinto<\/p>\n<p>Volto aos meus tempos de crian\u00e7a e de adolescente. Tempos em que convivi com o antigo trem da Rede Mineira de Via\u00e7\u00e3o (RMV), nos trechos que, saindo de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, tinha tr\u00eas diferentes destinos: as \u201c\u00c1guas Santas\u201d, Barbacena e o \u201cSert\u00e3o\u201d. Tempos em que a gente, at\u00e9 carinhosamente, chamava a RMV de \u201cRuim, Mas Vai\u201d.<br \/>\nA linha das \u00c1guas Santas era curta. Saindo relinchando da bela esta\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, logo a maria-fuma\u00e7a passava sobre o c\u00f3rrego da \u00c1gua Limpa em um pontilh\u00e3o de ferro. O nome \u201cpontilh\u00e3o\u201d j\u00e1 dava medo. Rolavam hist\u00f3rias de mortes e, por isso, poucos se arriscavam a passar a p\u00e9 naquela geringon\u00e7a de ferro. Logo adiante uma primeira parada: a esta\u00e7\u00e3ozinha \u201cChagas D\u00f3ria\u201d, no bairro de Matozinhos.<br \/>\nDeixando a esta\u00e7\u00e3o e poucos metros depois, a expectativa da passagem no pontilh\u00e3o sobre o Rio das Mortes. Para n\u00f3s meninos aquilo era como se fosse, hoje, atravessar a ponte Rio-Niter\u00f3i. Quando a maria-fuma\u00e7a enchia o pulm\u00e3o, soltava um jato de fuma\u00e7a branca e arrancava apitando da Chagas D\u00f3ria, alguns pescadores empoleirados no pontilh\u00e3o tinham que sair \u00e0s pressas, \u00e0s vezes at\u00e9 perdendo um belo mandi no anzol.<br \/>\nE falando em pontilh\u00e3o, lembro-me, aos 10 anos, do Nico Cassiano nos seus quase 90 anos, que vinha l\u00e1 da rua dos elegantes bangal\u00f4s, atravessava o Matola e me pegava na Vila Santa Terezinha para pescar. Um peda\u00e7o de lingui\u00e7a e uma garrafinha de cacha\u00e7a no embornal, misturadas com suas chumbadas que pesavam quase meio quilo. Assentado no pontilh\u00e3o, a cada vez que lan\u00e7ava o anzol com aquela baita chumbada, os pescadores por ali torciam o nariz e resmungavam: \u201caquele \u2018v\u00e9io\u2019 s\u00f3 serve para espantar os peixes!\u201d<br \/>\nPassada a maria-fuma\u00e7a, voltavam os pescadores. Depois vinha a parada da curta viagem: a esta\u00e7\u00e3o \u201cC\u00e9sar de Pina\u201d. Logo depois o sonhado destino: o balne\u00e1rio das \u00c1guas Santas.<br \/>\nPara n\u00f3s resende-costenses a C\u00e9sar de Pina tinha um atrativo especial. Muita gente, sobretudo homens, costumavam sair de Resende Costa bem de madrugada e andavam umas tr\u00eas l\u00e9guas a p\u00e9 at\u00e9 C\u00e9sar de Pina e, da\u00ed, acabavam de chegar a S\u00e3o Jo\u00e3o, na volta do trem.<br \/>\nA outra linha era a de S\u00e3o Jo\u00e3o a Barbacena, passando por Tiradentes. Na subida para Barbacena a maria-fuma\u00e7a sofria, bufava. Por vezes era at\u00e9 preciso ir jogando areia nos trilhos. Ruim, mas ia! Gastavam-se seis horas de viagem. De Barbacena podia-se pegar a Estrada de Ferro Central do Brasil e continuar para outros rumos: Itabirito, Ouro Preto, Belo Horizonte e at\u00e9 Rio e S\u00e3o Paulo. A RMV tinha uma bitolinha estreita, 60 cm. Parecia at\u00e9 trenzinho de brinquedo perto das imponentes marias-fuma\u00e7a da Central. L\u00e1 era outra hist\u00f3ria: bitola larga (1,60 m), tudo grande, dava medo! At\u00e9 o nome era imponente: as \u201cRamonas\u201d. O relincho era cavernoso, amedrontador. Dureza era aguentar a fuma\u00e7a e a chuva de carv\u00f5ezinhos que invadiam os carros. Os mais prevenidos usavam um guarda-p\u00f3, que chegava em casa sujo e cheio de buraquinhos queimados.<br \/>\nA terceira linha era a do \u201ctrem do sert\u00e3o\u201d. O sert\u00e3o era o oeste de Minas. Para n\u00f3s aquele nome soava como um lugar long\u00ednquo e misterioso. Era a linha mais distante. Ia at\u00e9 Ribeir\u00e3o Vermelho (perto de Perd\u00f5es e de Santo Ant\u00f4nio do Amparo), \u00e0s margens do Rio Grande. O mais esperado era a travessia do pontilh\u00e3o sobre o Rio Grande, perto do qual o do Rio das Mortes parecia uma pinguelinha.<br \/>\nMorando em S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei e tendo parentes e amigos que circulavam pelo trem do sert\u00e3o, a gente ouvia causos curiosos. O trem sa\u00eda bem cedo e chegava de volta j\u00e1 noitinha adentro.<br \/>\nVivendo no semin\u00e1rio dos salesianos, no alto do bairro das F\u00e1bricas, a gente tinha umas duas horas de estudo no in\u00edcio da noite. Era um sal\u00e3o enorme, sil\u00eancio absoluto e rigoroso. Ai de quem dormisse, mesmo depois de um dia de rezas, estudos, recreios, aulas e trabalhos. De tanto em tanto, a gente levantava os olhos j\u00e1 cansados e olhava, ansiosamente, um rel\u00f3gio grande l\u00e1 no alto, no qual estava escrito em latim: Afflictis, lentae; celeres gaudentibus horae (as horas s\u00e3o lentas para os aflitos e r\u00e1pidas para os alegres).<br \/>\nPois bem, aquele sil\u00eancio sepulcral s\u00f3 era quebrado, todas as noites, ali pelas sete e meia, com o apito prolongado da maria-fuma\u00e7a, voltando do sert\u00e3o. Esse apito se prolongava ao longo da avenida Leite de Castro. Nem era apito, era um relincho cont\u00ednuo. Da\u00ed o outro apelido da RMV: \u201cRincha, Mula V\u00e9ia!\u201d. Diziam que o maquinista abria o apito de longe para avisar \u00e0 \u201cpatroa\u201d que j\u00e1 podia ir preparando sua janta. Passando em frente \u00e0 sua casa, seu colega de cabine, o \u201cfoguista\u201d, jogava na beira dos trilhos uma bra\u00e7ada de ti\u00e7\u00f5es fumegantes. Pr\u00e1 \u201cespertar\u201d o fogo no feij\u00e3o&#8230;<br \/>\nSaudades dos trens-de-ferro, desativados no Brasil pelo furor da ind\u00fastria automobil\u00edstica, pelos homens da \u201cgloriosa revolu\u00e7\u00e3o de 64\u201d, e esquecidos por todos os homens (e a mulher) que os sucederam. Um pa\u00eds continental, s\u00f3 nos restaram rodovias vergonhosas e assassinas. Pobre Brasil, que ainda sonha em ser um pa\u00eds desenvolvido, rico e justo! B\u00e3o mesmo era o trem, s\u00f4!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Rosalvo Pinto Volto aos meus tempos de crian\u00e7a e de adolescente. Tempos em que convivi com o antigo trem da Rede Mineira de Via\u00e7\u00e3o (RMV), nos trechos que, saindo de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei, tinha tr\u00eas diferentes destinos: as \u201c\u00c1guas Santas\u201d, Barbacena e o \u201cSert\u00e3o\u201d. 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